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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A questão irlandesa

06 mar, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Theresa May poderá sacrificar o acordo de paz no Ulster a um acordo com a UE.

Na preparação do Conselho Europeu de Dezembro passado foi preciso ultrapassar um problema complicado: o primeiro-ministro da Irlanda declarou que só votaria a passagem à segunda fase das negociações do Brexit se ficasse escrito, preto no branco, que se manteria aberta a fronteira entre o seu país, a República da Irlanda, e o Ulster (Irlanda do Norte), que pertence ao Reino Unido. De facto, houve uma declaração escrita, que toda a gente aprovou.

Só que era uma declaração tão ambígua que, agora que é preciso resolver mesmo o problema, não serve para nada. Ora não é exagero dizer, como foi dito, que a questão da fronteira irlandesa poderá rebentar as negociações em curso.

Talvez para obrigar Theresa May a ser mais específica nas posições britânicas, o negociador-chefe da UE, Michel Barnier, avançou com a proposta de o Ulster se manter na união aduaneira da Europa comunitário, após o Brexit.

Claro que May – nem qualquer outro primeiro-ministro britânico, como ela lembrou – poderia aceitar tal coisa. É que o Reino Unido ficaria internamente dividido, separando-se do Ulster no plano comercial.

Em resposta, na passada sexta-feira T. May fez um discurso menos agressivo sobre as negociações do Brexit. Até preveniu os seus compatriotas que a Reino Unido teria de fazer concessões dolorosas. Mas sobre a fronteira irlandesa não adiantou pormenores visando uma solução. Apenas manifestou a esperança de o Reino Unido e a UE conseguirem um acordo comercial inovador, mais profundo e alargado do que os acordos que a UE mantém com países como a Noruega ou o Canadá.

No sábado, May revelou estar disposta a aceitar a jurisdição do Tribunal Europeu sobre segurança e defesa. Mas foi dizendo que não chegar a acordo é melhor do que um mau acordo. E repetiu que o Reino Unido não ficará na união aduaneira nem no mercado único europeu.

A “quadratura do círculo”, como já chamei a esta dificuldade “irlandesa”, é ainda agravada pelo facto de a maioria de T. May na Câmara dos Comuns só existir graças ao apoio do partido pró-britânico do Ulster.

Acontece que a manutenção daquela fronteira aberta foi uma das condições do acordo que, há 20 anos, trouxe a paz ao Ulster. Daí que vários comentadores britânicos admitam a possibilidade de T. May sacrificar esse acordo de paz a um acordo comercial do Reino Unido com a UE. Mas certamente o governo de Dublin não aceitaria tal hipótese.

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