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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​A vingança de Putin

26 fev, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Multiplicam-se os casos de desinformação de origem russa na internet, para dividir e enfraquecer as democracias liberais.

Em 2015 a União Europeia criou um grupo de trabalho, composto por especialistas, para detectar e combater ataques de desinformação provenientes da Rússia e através da internet, sobretudo nas redes sociais. Segundo declarou Federica Mogherini, Alta Representante da UE para a Política Externa e a Segurança, foram encontrados mais de 3500 exemplos de desinformação pró-russa, ingerindo nomeadamente nas eleições em França, no Brexit e no problema da Catalunha. Estas ingerências recorrem a notícias falsas e a opiniões mais ou menos inventadas, de maneira a criar divisões nas democracias liberais, assim as enfraquecendo.

Entretanto, nos EUA as interferências russas visaram nos últimos dias o debate sobre o controle de armas, na sequência de mais um tiroteio que matou 17 pessoas numa escola da Florida. Como se sabe, este é um assunto que divide profundamente os americanos.

Politicamente ainda mais relevante é a interferência russa nas eleições que levaram Trump à Casa Branca. Robert Mueller, o procurador que investiga eventuais conluios da campanha eleitoral de Trump com entidades russas, acusou há dias 13 russos de ingerência.

Paralelamente, multiplicam-se os contactos e os acordos entre partidos e políticos radicais e o partido de Putin. É o caso, por exemplo, do acordo de cooperação entre a Rússia Unida, partido que apoia Putin, e a Liga do Norte, liderada pelo neofascista Matteo Salvini. O mesmo acontece com o partido austríaco de extrema-direita, que faz parte da coligação de governo de Viena, detendo as pastas dos negócios estrangeiros, defesa e interior. Curiosos, ainda, são os laços cada vez mais estreitos entre o Kremlin e o partido alemão de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, bem como com o partido de extrema-esquerda Die Linke, descendente do partido comunista da antiga Alemanha de Leste.

As democracias liberais estão, assim, a ser seriamente ameaçadas pela Rússia – ao ponto de o semanário britânico “The Economist” dedicar a sua última história de capa ao problema. Trump preocupa-se apenas em não vir a ser inculpado de conluio com russos na sua eleição. E os países europeus ainda não tomaram medidas eficazes para se defenderem.

Decerto que agora não se trata de a Rússia exportar ideologia para todo o mundo como acontecia no tempo do comunismo. O objetivo da Rússia é enfraquecer essas democracias, uma espécie de vingança de Putin por o seu país ter perdido a guerra fria e já não ter o estatuto de superpotência.

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus


Comentários
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  • Vasco
    26 fev, 2018 Santarém 23:46
    Lá que os russos sempre meteram o nariz em terra alheia disso temos nós próprios a prova durante as guerras coloniais mas ao ponto de interferirem com partidos de extrema-direita europeus deixa-me muitas dúvidas uma vez que até o próprio Putin tem ainda fortes raízes comunistas, a crescente onda direitista europeia para mim tem algumas razões de ser tais como globalização e sobretudo invasão islâmica acompanhada de outras medidas impostas por políticos incompetentes que têm levado à degradação da estabilidade e da paz na Europa, o resto parecem-me desculpas de mau pagador como se costuma dizer!.
  • António Costa
    26 fev, 2018 Cacém 15:04
    Deixa-me descansado. Vivemos num mundo "cor-de-rosa" em que os russos "maus" fazem mil e uma tropelias. De um lado os "maus"(russos) e do outro lado os bons, honestos que tentam levar uma vida "pacata". O problema é que o ser humano, também pensa. Todos sabemos que apesar dos "meios modestos da guerrilha", na guerra colonial portuguesa, meios e homens vinham do outro lado da fronteira. Na Guerra do Vietname os abastecimentos vinham via "pista de Ho Chi Minh". A guerrilha precisa de santuários. Os "santuários" são países do "outro lado da fronteira" onde no caso do "Estado Islâmico" era nem mais nem menos a Turquia. (Vejam o mapa, não é difícil). Evidentemente que as "tropelias" destes "indivíduos" ultrapassaram em muito tudo aquilo a que o "ocidente estava habituado". Como a Turquia era da NATO, culparam-se os "terroristas". A Humanidade foi sempre um saco de gatos. Os russos tentam influenciar o desenrolar dos acontecimentos? Claro que sim! E os outros, não tentam? O Dr.Francisco Sarsfield Cabral ainda não reparou na quantidade de fotos de crianças aterrorizadas, sempre que áreas controladas pela Al-Qaeda são atacadas? A par com um silencio atroz, sempre que as vitimas são aliados do Irão ou curdos, inimigos da Turquia, por exemplo?