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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Fazer o mal a coberto do bem

24 fev, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


As organizações com fins caritativos não estão imunes a quem use o dinheiro em proveito próprio e utilize a solidariedade como capa para o crime.

A associação “Raríssimas” está em risco de fechar. Depois do escândalo que envolveu a anterior presidente da associação (alegada utilização de verbas da instituição para gastos pessoais), o dinheiro do Estado não faltou, mas muitos mecenas suspenderam o seu apoio.

O que, segundo a nova presidente da “Raríssimas”, Margarida Laygue, pode pôr em causa o tratamento de 247 utentes que sofrem de doenças muito raras.

Oxalá a “Raríssimas” reencontre depressa apoios financeiros privados, de modo a evitar o desastre que seria o fecho da instituição. Mas não há dúvida de que o caso “Raríssimas” abalou a confiança de muita gente não apenas nesta associação como no sector social.

O regresso da confiança exige ao sector um redobrado esforço de transparência. Entre nós nem sempre é respeitado o imperativo de prestar contas, sobre os apoios recebidos e sobre a sua concreta aplicação em iniciativas de solidariedade; urge que a informação pública seja um princípio seguido por todo o sector social, sem exceções. Sector que tem já grande importância na sociedade portuguesa.

Escreveu o Pe. Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), no diário “Negócios” de quinta-feira passada, que “o emprego remunerado na economia social, ao atingir 6% do emprego total (em 2013), revelou uma capacidade empregadora superior a ramos de atividade tradicionalmente caracterizados pela utilização intensiva de trabalho”.

O setor social agrupa cooperativas, mutualidades, misericórdias, fundações, associações e outras organizações, como as IPSS (Instituições Privadas de Solidariedade Social).

Uma cobertura para burlas

A proximidade às pessoas realmente carenciadas e o empenho solidário destas entidades têm-se revelado indispensáveis no combate à pobreza e à exclusão em Portugal, país onde o Estado não nada em dinheiro nem possui o conhecimento das realidades no terreno que, em geral, têm aquelas organizações. Estas necessitam de uma gestão competente, muitas vezes, mesmo, de uma gestão profissionalizada para que a sua ação seja eficaz. Por isso têm procurado melhorar a capacidade gestora dos seus quadros.

Mas a ética não se ensina. Quando surgem problemas de falhas éticas ou deontológicas em instituições vocacionadas para fazerem o bem, não tendo o lucro como prioridade mas como condição de sobrevivência, o escândalo na sociedade é compreensivelmente maior do que se tratasse de empresas comerciais. Escândalo que se arrisca a secar o volume de contribuições e ofertas de mecenas e do público em geral, sem o que a viabilidade das instituições sociais se torna problemática.

Inversamente, a cobertura de instituições de solidariedade social é frequentemente procurada por gente sem ética. Estar ligado a essas instituições afasta suspeitas e dá respeitabilidade. Por isso um dos maiores burlões da história, o americano Bernard Madoff, multiplicava apoios financeiros a entidades religiosas (sobretudo judaicas) de solidariedade. Em 2008 descobriu-se que a sua sociedade de investimento, na qual não entrava quem queria, distribuía bons lucros através de um esquema em pirâmide: os lucros eram distribuídos com o dinheiro que ia entrando. Tal como por cá aconteceu com a célebre D. Branca, chega um momento em que o dinheiro que entra deixa de ser suficiente para distribuir os lucros habituais e dá-se a derrocada.

As ONG e o poder

Por outro lado, muitas organizações não governamentais de solidariedade social (ONG) têm hoje um enorme papel à escala mundial. A Oxfam, fundada na Grã-Bretanha em 1942, está presente em quase cem países, possui 630 lojas um pouco por todo o mundo, vendendo livros usados e roupa em segunda mão (uma fonte de financiamento), e tem ao seu serviço 23 mil voluntários e dez mil empregados. A Oxfam está a ser alvo de escândalos sexuais, por exemplo no Haiti, onde foi acorrer às vítimas de um trágico tremor de terra em 2010. Mas há muitos outros casos: a própria Oxfam investiga 26 novos casos de abuso sexual.

Algum pessoal, profissional e voluntário, da Oxfam e de outras entidades semelhantes, terá abusado da sua posição de “socorrista” face a gente fragilizada e paupérrima. Não é aceitável, claro. Já altos dirigentes da Oxfam se demitiram por causa do escândalo, mas vai demorar a ONG recuperar o seu prestígio, que era elevado. E, naturalmente, outras ONGs sofrem por tabela.

As ONGs são um fenómeno relativamente recente. Fenómeno em princípio de saudar, pelo muito que tem feito no mundo em favor de pessoas muito pobres e de vítimas de desastres naturais. Mas são também multinacionais com grande poder, inclusivamente financeiro. Daí que, por vezes, existam lutas e confrontos entre pessoas que aspiram a exercer esse poder, ainda que não seja em proveito próprio. E há pessoas que, tendo aderido a uma ONG com o melhor espírito – ajudar os outros -, a certa altura ficam fascinadas pelo poder.

Em suma, o mal também se introduz em entidades vocacionadas para o bem. É pena, mas é assim.

Comentários
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  • Sebastião
    24 fev, 2018 Lisboa 21:06
    Um texto muito mal conseguido de Sarsfield Cabral. Creio que já está na altura de arrumar as botas e tratar da reforma.