Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

A estranha relação luso-espanhola

21 fev, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Os governos de Espanha e de Portugal têm um bom relacionamento, mesmo quando pertencem a diferentes famílias políticas. Mas na mina de urânio a céu aberto, como em Almaraz, os espanhóis ignoram os portugueses.

O ministro das Finanças de Espanha, Luis de Guindos, teve o apoio de Portugal para substituir Vítor Constâncio na vice-presidência do Banco Central Europeu. Apesar de

Guindos ser de um partido e de um governo de direita, enquanto o governo português é de esquerda.

Antes, Guindos havia apoiado a candidatura de Centeno a presidente do Eurogrupo. O bom relacionamento entre Lisboa e Madrid não é recente, acontece há décadas, mesmo quando envolve governos de diferentes famílias políticas. E as reuniões cimeiras luso-espanholas decorrem geralmente num clima de convergência.

Mas nem por isso as relações de Portugal com Espanha estão isentas de problemas. Agora temos a questão de uma mina de urânio a céu aberto, perto de Salamanca e a 40 quilómetros da fronteira com Portugal.

Essa mina, a única da Europa a céu aberto, ameaça contaminar a água do rio Douro e a atmosfera, mesmo em território português. Os autarcas portugueses da zona ameaçada há muito que se preocupam com esta mina. Há cerca de um ano e meio, o presidente da Câmara de Miranda do Douro queixou-se deste problema aos microfones da Renascença.

Os autarcas portugueses têm contactado os seus colegas do outro lado da fronteira, onde existem também fortes oposições à concretização da mina de urânio. Um grupo de deputados portugueses visitou na semana passada as obras da mina.

A nível governamental, porém, não parece ter havido qualquer diálogo útil sobre a mina de urânio a céu aberto. O Governo português não podia ignorá-la, pois a movimentação dos autarcas contra o projeto era pública.

Ou seja, como tem sido notado, a história da central nuclear de Almaraz, junto ao Tejo, repete-se: os espanhóis avançam sem nada comunicarem oficialmente às autoridades portuguesas, que ficam colocadas perante factos consumados, ou quase – em Almaraz, a construção de um depósito de resíduos nucleares.

A passividade do Governo português nestes dois casos é lamentável. Insere-se num tipo de governação que não é pró-ativa e se limita a reagir aos acontecimentos, em vez de os prevenir. Viu-se, dramaticamente, nos trágicos incêndios do ano passado.

No caso da mina de urânio a céu aberto, o Governo português aparentemente contentou-se com uma resposta espanhola, segundo a qual está ainda longe o licenciamento da mina. Não terá ocorrido ao executivo de Lisboa exigir, por exemplo, um estudo de impacte ambiental dos dois lados da fronteira.

Felizmente, Portugal e Espanha pertencem à União Europeia. Se a mina de urânio espanhola violar diretivas comunitárias, como alguns defendem, a Comissão Europeia poderá ajudar os portugueses.

É mais um exemplo de como a integração do nosso país na UE aumenta, e não diminui, a soberania portuguesa real, não a teórica. Sem a UE, num confronto bilateral entre os dois países peninsulares, ficaríamos certamente submetidos ao muito maior poderio espanhol.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Vasco
    21 fev, 2018 Olivença 23:27
    O bom relacionamento de facto funciona porque do lado de cá da fronteira temos uma cambada de políticos submissos ao regime de Madrid, já alguém reclamou no caso Olivença? Portanto como no final o resultado tomba sempre em favor de Madrid os amores continuam caso contrário teríamos inimigos tal como os têm os catalães, bascos ou outros que levantem voz contra a ditadura colonialista dos castelhanos.
  • josé
    21 fev, 2018 PAREDE 10:15
    E o senhor Presidente da República que mais parece a Madre Teresa de Calcutá a dar beijinhos e abraços aos velhinhos e meninos, também ignora olimpicamente este e outros problemas reais da governação, sobre eles nem uma palavra !!! onde esteve Marcelo no caso de Almaraz ? Mas apoiamos rapidamente Madrid quando eles estão em dificuldades, caso da Catalunha, mais do que todos os outros países e Marcelo vai a correr ao beija mão do Rei de Espanha ... enfim as nossas elites nunca se portaram bem perante Castela, desde 1385 ...