Opinião de Luís António Santos
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Opinião

Há quase duas décadas a comparar batatas com cebolas...

05 fev, 2018 • Opinião de Luís António Santos


Quase duas décadas de apelo a uma competição bacoca num aspeto singular da vida de uma escola mudou a Educação em Portugal. Temos agora - com a ajuda adicional de uma gestão atroz da pasta durante os quatro anos de Nuno Crato - um sistema orientado (desde o Ensino Básico) para a obtenção de resultados em provas nalgumas áreas apenas

Já temos rankings de escolas (ou listas seriadas, como o atual ministro prefere dizer) há 17 anos. E talvez seja tempo de lançar um olhar crítico não apenas sobre o que eles são e representam, mas também sobre o que esteve na sua origem e sobre a influência que passaram a ter na gestão do sistema.

Os rankings terão sido - creio eu - o exemplo mais bem sucedido de influência de um órgão de informação (e de um jornalista, ao tempo diretor desse jornal) na política nacional nas últimas duas décadas. Uma poderosa campanha de ‘jornalismo de causas’, ao serviço de um olhar ideológico radical (e convocando para a ‘batalha’ gente à época perfeitamente desconhecida, como o futuro ministro, Nuno Crato), redundou na criação de listagens simplistas que, ano após ano, reforçam uma só ideia – a escola privada é tendencialmente boa e a escola pública é tendencialmente má.

Bastaria correr os títulos da maioria dos jornais ou ouvir/ver a maioria das notícias sobre o assunto nos últimos dias para perceber que, mesmo depois de revisões profundas por comparação com o momento inicial, o ranking ainda serve este propósito (‘Veja aqui em que lugar ficou a escola do/a seu/sua filho/a?’). Na mesma lista seriada coexistem, 17 anos depois, realidades completamente distintas que - diz-nos a Matemática mais elementar - não devem nunca comparar-se (‘batatas com batatas e cebolas com cebolas’, dizia a minha professora da 4.ª classe). Temos escolas que escolhem os alunos ao lado de escolas que não podem (e ainda bem) fazer qualquer tipo de seleção; temos escolas que preparam turmas específicas para ‘entrar em Medicina’ ao lado de escolas que fazem um tremendo trabalho de apoio social de sobrevivência para alunos e famílias.

Mas porque será que isto continua a acontecer? Porque será que se insiste na divulgação de dados que fazem precisamente o contrário do que deviam; que nos mostram apenas um olhar tortuoso sobre a realidade?

A verdade é que apesar da clara desvalorização política deste tipo de tratamento de dados e da disponibilização de um instrumento alternativo - o ranking geral de sucesso - a simplificação boçal tem um enorme apelo para a produção jornalística (‘A minha escola é melhor do que a tua?’; ‘Saiba qual é a pior escola do país’) e transformou-se num monstro que se auto-alimenta e que ajuda a produzir, de forma cíclica, um discurso próximo do registo agora tão debatido das ‘fake news’.

Quase duas décadas de apelo a uma competição bacoca num aspeto singular da vida de uma escola mudou a Educação em Portugal. Temos agora - com a ajuda adicional de uma gestão atroz da pasta durante os quatro anos de Nuno Crato - um sistema orientado (desde o Ensino Básico) para a obtenção de resultados em provas nalgumas áreas apenas. Isto significa que a aprendizagem se concentra na fixação da ‘resposta certa’. Muito treino e muitas explicações depois, a ‘resposta certa’ embala milhares de jovens até um mercado de trabalho que procura, precisamente, gente com as competências quase opostas – gente que sabe convocar saberes distintos na elaboração de respostas a perguntas que nunca foram feitas antes.

Os rankings simplistas são uma ferramenta no aparato ideológico extremista que vê na Educação um espaço de ‘fabricação de mão-de-obra’ (tendencialmente submissa, tendencialmente silenciosa e, de preferência, pouco dada a distrações...como o conhecimento para lá ‘do que é essencial’). Estariam bem num país retrógrado e fechado, mas são (como já outras nações desenvolvidas perceberam há muito tempo) uma entorse permanente no sistema, que impede a qualificação diversificada, flexível e transdisciplinar de uma comunidade de cidadãos ativos e conscientes.

Os rankings não servem o país que queremos ser. Está mais do que na altura de fechar este capitulo tenebroso na história da Educação.

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  • António Costa
    05 fev, 2018 Cacém 19:04
    Pois é, não se devem comparar cebolas com batatas. Mas pior, é não deixar, nem dar oportunidade a quem dentro do ensino público queira obter bons resultados. "Não há tempo para fazer e resolver exercícios de Matemática, o tempo mal dá para dar a teoria..." - dito aos pais, (pasme-se!) por uma professora do ensino público. A Matemática, como o Futebol exige prática. Treinando e realizando exercícios. Como no Futebol, como em qualquer atividade é Necessário Treino. No 11º ano/Matemática a noção de "Limite" é a base. Perceber esta noção. Sim, existem dezenas de Teoremas que são apenas "réplicas" de uma ÚNICA ideia base. Mas é para isso que o Professor serve! Para explicar o que é importante no meio de tanto LIXO! Evidentemente, coitados dos alunos, a média da turma em Matemática < 7 valores. Evidentemente, quem tem potencial económico vai estudar para colégios. O ensino privado não tem "melhores" professores! Os alunos do privado é que treinam muito mais do que os do público! Apenas isso!
  • MASQUEGRACINHA
    05 fev, 2018 TERRADOMEIO 16:04
    Excelente artigo. Tem toda a razão, designadamente no enorme apelo para a produção "jornalística" da simplificação boçal - é espantoso como um insulto à inteligência mais mediana é veiculado e normalizado, ano após ano... Ainda bem que ainda há quem se dê ao trabalho de remar contra a maré.