Opinião de José Luís Nunes Martins
A+ / A-

O Natal segundo José

22 dez, 2017 • Opinião de José Luís Nunes Martins


Não somos senhores de nós mesmos, nem nunca seremos bons juízes dos outros, por maior que seja o esforço e melhor a intenção.

Muitas vezes, o amor exige que nos façamos invisíveis, quase insignificantes, tornando-nos num suporte do outro. Um instrumento escondido da sua vida.

Em alguns pontos da nossa existência, somos confrontados com situações exigentes, que julgamos estar acima das nossas forças e talentos. Com ponderação, repudiamos essas possibilidades quase impossíveis. Mas eis que, num sonho, nos é dado a ver que a vida é tecida de milagres que ultrapassam a nossa capacidade de compreender! E avançamos, porque alguns milagres dependem apenas de nós, para se fazerem verdade.

Há um fio invisível que nos liga ao futuro. Por vezes estica, outras vezes sentimos os seus nós, mas é muito forte, inquebrável, e impede-nos de cair nos buracos mais fundos da existência. Puxa-nos para o alto, ainda que de forma muito delicada e subtil! Contudo, a nossa vontade é sempre respeitada, até ao ponto de podermos cortar essa linha.

Algumas pessoas entregam o seu coração ao egoísmo e ao orgulho, julgando que são juízes de si mesmas e que a ninguém mais terão de responder. Outras pensam que é a opinião dos outros que importa impressionar e conquistar. Ora, não somos senhores de nós mesmos, nem nunca seremos bons juízes dos outros, por maior que seja o esforço e melhor a intenção.

Neste nosso mundo, ainda há muita gente que não se envergonha pela miséria alheia. Não se alegra com as vitórias justas dos outros, nem percebe que cabe a cada um juntar umas quantas pedras na construção do mundo…

A ternura e a humildade não são coisas de fracos, antes, sim, virtudes dos mais fortes. Dos que não precisam de maltratar ninguém para se sentirem importantes.

Com paciência e tranquilidade, chega-se sempre à hora certa… e a luz aparece.

O silêncio de quem acredita que a sua presença faz a diferença é a paz absoluta. A simplicidade de alguns gestos, como ajudar o outro nas tarefas mais simples e vulgares, são quase milagres. É estranho e curioso, mas as pessoas, na sua vontade de complicar sempre, julgam que o essencial é tão básico que até pode ser deixado para trás!

Com o nascimento do milagre absoluto mesmo diante de nós, o que nos é pedido? Que estejamos presentes, em silêncio e cuidando do simples. Nada de mais, nada de extraordinário.

Claro, estar no lado do bem implica resistir aos ataques dos que estão nos outros lados.

Será que importa que mais alguém saiba o que fazemos de bom? Não, somos nós quem mais ganha com isso. Para quê vaidade?

Cumpre-nos fazer o que estabelecemos como nosso dever, aceitando tudo o resto, porque pouco mais depende de nós.

Quando nada mais podemos fazer, devemos entregar o assunto a Deus... e ir dormir.

Quem se esforça por querer o que Deus quer, anda muito perto do céu.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • MASQUEGRACINHA
    22 dez, 2017 TERRADOMEIO 21:34
    Sem dúvida que há um fio que nos liga ao futuro - mas não me parece que seja assim tão invisível, e ainda menos que nos puxe sempre para o alto... Mas talvez só mesmo, mesmo, no fim de tudo compreendamos se foi ou não para o alto que nos puxou. Como Espinoza disse, quem sabe o que é a virtude, não consegue senão praticá-la - o que poucas vezes é uma benção, a menos que o em baixo em que acabamos por nos encontrar seja, afinal, o tal alto em que não sentimos estar... O que me parece inutilmente complicado. Não basta ter boa semente e espírito (dever?) de a partilhar, também é preciso bom chão em que a deitar - e esse, quem o distingue? Talvez daí tanta gente não apostar na bondade e no sacrifício pessoal - e, muito sinceramente, não me atrevo a julgá-los. Podemos (devemos?) partir o fio, como diz - mas não é para todos conseguir viver em paz com a cruel certeza de ter gasto quase toda a cera com ruins defuntos, tentando salvar o que sobra. Para que pelo menos uma pequenina luz nos alumie no meio das ruínas em que, por nossas próprias mãos, transformámos a nossa vida. É penoso ir contra o nosso próprio coração, mas quantas vezes a bondade, o perdão, a generosidade, o acreditar, o fingir que não se ouve e não se vê, não acaba por excitar e exacerbar o que de pior há nos outros? Não é isso também responsabilidade nossa, um grande mal que lhes fazemos? Às vezes sermos invisíveis significa literalmente isso mesmo, para bem de todos. O que, felizmente, não foi o caso de José.