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Opinião de Graça Franco
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Opinião de Graça Franco

​Sem palavras nem imagens

21 fev, 2018 • Opinião de Graça Franco


Em Ghouta ou se pára já com o massacre em curso ou daqui a dez anos estaremos a lamentar não ter acordado a tempo para travar esta nova Srebrenica. A Humanidade aprende lentamente.

Já não há palavras para classificar o que se está a passar em Ghouta Oriental, na Síria, perante os nossos olhos embrutecidos. Daí que a nota em branco publicada pela UNICEF tenha pelo menos o mérito de o dizer, sem precisar de usar uma única palavra para pôr a nu uma realidade a que já assistimos vezes sem conta. Se mil fotos de meninos mortos ou em pânico com os milhões de palavras que lhes estão associadas não tiveram o mérito de abrir os olhos do mundo para o maior “massacre do século XXI”, não precisamos de lhes acrescentar nem mais uma palavra que seja.

Bashar al-Assad continua a ocupar a sua cadeira de poder. Manchada de sangue de milhares de inocentes de todas as etnias e credos. Sangue de bandidos e sangue de inocentes, mas sempre sangue e mais sangue. Uma cadeira de poder empoeirada pelas bombas de aliados e adversários que se vão sucedendo, numa chuva de amigos de ocasião. Ora Russos e iranianos, como nos bombardeamentos dos últimos dias, ora turcos, franceses ou americanos como aqui e ali foi acontecendo há quase uma década de guerra. Ora sírios contra sírios e curdos contra curdos. Numa guerra civil que não parece ter princípio nem fim. Assad resiste e permanece como um verdadeiro sempre em pé.

Em 1990 ninguém viu o que se estava a passar em Srebrenica. Fechámos os olhos ao que hoje lamentamos. Mas hoje é difícil perceber até que ponto um dos mais prósperos e tranquilos países da zona pode chegar de novo a um amontoado de escombros, onde nem os especialistas em geopolítica conseguem decifrar entre “bons” e “maus”. Tudo parece cruzar-se no medo das crianças, fixando as câmaras em espasmos de horror.

As imagens do ataque mais mortífero dos últimos três anos na Síria
As imagens do ataque mais mortífero dos últimos três anos na Síria

Aqueles meninos em fuga permanente desde que nasceram, estejam do lado que estiverem, com sorte estão apenas rodeados dos seus pais e mães ou do que ainda sobra de uma família alargada. Nos casos ainda mais terríveis, os seus companheiros de infortúnio são apenas sequestradores, assassinos, os sobreviventes que lhes mataram os pais e as mães, lhes levaram os irmãos para a guerra e fizeram das irmãs escravas sexuais. Pior é impossível imaginar.

Fome e sangue a rodos. A escorrer das poucas ambulâncias que ainda circulam nas estradas que de um minuto para o outro se transformam em cemitérios sem cruzes, sem crescentes, sem credo nenhum. Só na última semana em Ghouta Oriental foram seis os hospitais propositadamente bombardeados, tidos como alvos “legítimos” de uma guerra em que a legitimidade ou nunca existiu ou há muito que já não faz parte do léxico militar.

Rebeldes. É a palavra mágica para classificar tudo o que não seja Assad e as suas tropas. Rebeldes pode ser tudo o que mexe. E vistos lá de cima os rebeldes são simples formigas sobre as quais se despejam toneladas de explosivos (as temíveis bombas de barril carregadas de tudo o que possa aumentar ainda mais o seu potencial de morte!), bombas compradas um pouco por todo o lado.

Poucas vezes as indústrias de armamento venderam tanto a tantos. Se há indústria próspera é esta. Alemães, americanos, russos, franceses, e todos os vendedores das armas (que podem ser de tecnologia de ponta ou mera sucata para rearmar aqui e ali as milícias que resistem por instinto de pura sobrevivência). Todos a lucrar milhões com a morte dos outros. Guerras e mais guerras em nome de nada.

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros pedia, ontem, ao Conselho de Segurança da ONU a convocação urgente de uma reunião que permitisse ao menos a declaração de uma trégua humanitária. Porque todos os ataques apenas parecem dar sinais de recrudescer ainda mais. Pior: sente-se a cada nova imagem que um novo massacre ainda pode estar para vir, quando Ghouta já não for uma região a Norte, nenhuma cidade ficar de pé e nem um menino em pranto restar entre os escombros.

As tropas de Damasco (as mesmas que não hesitaram em usar armas químicas contra os curdos tidos por rebeldes, ainda há cinco anos) que agora se aliaram aos curdos de Afrin para enfrentar as forças fronteiriças turcas dispostas a parar na fronteira qualquer veleidade autonomista, hão de surgir a atacar/ defender outra cidade ou região qualquer, em nome do eterno Bashar al-Assad.

E ele, com cada vez menos povo, continuará muito provavelmente em pé. Apresentando-se a muitos como o menos mau entre uma multidão de outros malditos. Em Ghouta ou se pára já com o massacre em curso ou daqui a dez anos estaremos a lamentar não ter acordado a tempo para travar esta nova Srebrenica.

A Humanidade aprende lentamente.

Comentários
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  • Pedro Nunes
    22 fev, 2018 Quinta do Conde 23:25
    Sra. Graça Franco, não vou gastar o meu tempo a explicar-lhe o que era a Síria, antes da invasão da escumalha terrorista apoiada pelos EUA e os seus lacaios europeus e árabes, informe-se. Sra.Graça Franco, já escreveu algum artigo de opinião onde faça referência às mais de 800 vítimas mortais e aos mais de 10000 feridos em Damasco, devido ao constante e indiscriminado bombardeamento com morteiros, lançados a partir de Ghouta desde 2016? Sra.Graça Franco, onde estão as provas dos ataques químicos, são iguais às que os EUA e os seus lacaios europeus e árabes, apresentaram para justificar a invasão do Iraque? Invasão essa levou ao aparecimento do Daesh e à morte de milhares de iraquianos vítimas de atentados diários? Sra. Graça Franco onde está a sua indignação? Ou será só hipocrisia?
  • MASQUEGRACINHA
    22 fev, 2018 TERRADOMEIO 15:32
    Porquê daqui a dez anos? É algum tempo pré-definido dos ciclos de indignação? Este é o mundo que criámos, ou permitimos, o que vai dar ao mesmo. O que pensarão de nós as crianças que escapem, os futuros adultos que escaparam? Que há inocentes entre nós? A Humanidade aprende tão lentamente como o gado na antecâmara do matadouro, a ouvir os longínquos mugidos dos moribundos... enquanto vão ruminando e coçando os inúteis chifres. Nós, vamos olhando maravilhados para as estrelas, para ver se conseguimos ver passar o tesla com o avatar da humanidade ao volante.
  • António Costa
    21 fev, 2018 Cacém 19:25
    A Humanidade foi sempre a mesma. No tempo de Hitler os seus campos de concentração para judeus eram elogiados pelas suas "comodidades". Até tinham "duches"! Foi preciso Hitler PERDER a guerra para os antifascistas aparecerem como cogumelos depois de um dia de chuva. Foi preciso Hitler perder a guerra para que a enorme dimensão do HOLOCAUSTO Nazi fosse tornada pública. Hoje o silêncio atroz que os massacres de que o povo curdo é vitima, continua. É incrível, os dirigentes turcos gabam-se dos milhares de curdos que "anularam"! Silêncio total. Os dirigentes turcos sabem que apenas as vitimas dos bombardeamentos de Ghouta Oriental ou de os anteriores em Alepo vem a público. Os curdos que também tem crianças, não tem os enormes recursos financeiros que os patrocinadores dos grupos anti-Assad dispõem. Estão por sua conta. Não tem voz.