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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU NEM FARISEU

Assédio: já podemos criticar a “revolução sexual”?

17 nov, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


No Maio de 68 e afins, a predação sexual foi legitimada pela retórica da “revolução sexual”, porque estava tudo bem desde que houvesse transgressão.

As denúncias de assédio e violação têm sido apresentadas através da narrativa anti-patriarcal, ou seja, fazem parte de uma campanha contra os códigos sociais construídos em redor dos vícios masculinos. Não tenho problemas com esta narrativa. O homem é de facto o predador sexual por excelência. No entanto, denunciar o “patriarcado”, o “machismo”, o “marialvismo”, etc. é apenas metade desta conversa.

Se queremos ser sérios, também temos de denunciar a revolução sexual dos anos 60 e 70, que continua a ser a fonte da moral que respiramos. O machismo de Weinstein e demais predadores agora denunciados não existe num vácuo ahistórico, não está pendurado numa condição masculina abstracta ou eterna. Pelo contrário, o marialva à Weinstein é filho da "revolução sexual" e da (alegada) libertação dos costumes.

Weinstein tem razão quando diz que “cresceu nos anos 60 e 70, época em que as regras eram diferentes”. Que regras eram essas? A regra era a inexistência de regras, porque qualquer código moral que impusesse limites e filtros ao instinto sexual era de imediato alcunhado de “moralista”, “religioso”, “retrógrado”; cada um devia viver a sua personalidade sexual sem qualquer tipo de entrave. O pós-verdade factual, ético e sexual não foi inventado por Trump, mas sim pela esquerda dos anos 60. Naquele contexto do Maio de 68 e afins, a predação sexual foi legitimada pela retórica da “revolução sexual”, porque estava tudo bem desde que houvesse transgressão. A moral deixou de ser substantiva e passou a ser formal: se um determinado acto sexual correspondesse à transgressão de uma regra, então esse acto era bom; transgredir tinha sempre um certo charme.

Querem exemplos? Hollywood e Cannes, as pátrias de Weinstein, desculparam e/ou romantizaram Roman Polanski, o homem que drogou e sodomizou uma miúda de 13 anos; a cultura do Maio de 68 legitimou ou desdramatizou a pedofilia assumida por um dos gurus do Maio de 68, Cohn-Bendit; Bill Clinton foi e continua a ser desculpado. Não sejamos portanto hipócritas. A predação sexual sobre mulheres e crianças fez parte da cultura da “revolução sexual”; o abuso de mulheres e de crianças pôde ser feito sob a capa da liberdade ou da libertação em relação aos códigos morais do passado. Como dizia há dias Ross Douthat no “The New York Times”, a retórica da “revolução dos costumes” legitimou um espírito dionisíaco cruel e amoral, que foi e continua a ser a continuação do patriarcado por outros meios.

Portanto, a sociedade que – a jusante – denuncia Weinstein não pode ser a sociedade que recusa – a montante – o pudor enquanto princípio moral; a sociedade que se revolta contra a “cultura de violação” não pode ser a sociedade que vê no sexo um mero divertimento sem consequência. Por outras palavras, quem é contra Weinstein tem de ser contra o Tinder.

O facto mais curioso de toda esta polémica parece ser a evolução do feminismo. Ao longo de todas estas décadas, as feministas pactuaram com a retórica da revolução sexual, impondo a imagem da mulher a libertar-se dos códigos patriarcais do passado. Mas hoje são cada vez mais as mulheres que afirmam que a tal revolução sexual só beneficiou o machismo de sempre e que, em grande medida, o feminismo tem feito o jogo do marialva. O feminismo vive num momento histórico fascinante, porque mais cedo ou mais tarde vai ter de admitir que um regresso ao pudor e à discrição será a grande conquista das mulheres e dos homens interessados na diminuição dos casos de assédio e violação. Não, não se está a pedir o regresso ao tempo da abstinência e da diabolização do sexo antes do casamento. Pede-se outra coisa: quem educar as filhas e sobretudo os filhos no pressuposto de que o sexo só faz sentido num contexto de amor não pode continuar a ser visto como “moralista” ou “retrógrado”; deve ser visto, isso sim, como alguém preocupado com a decência.

Comentários
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  • mara
    19 nov, 2017 Portugal 18:09
    Até senhores muito credíveis num Pais inteiro não passavam de bandidos com as suas apalpadelas, grandes bandidos e nojentos, mas Deus lhes dará o pago.
  • Vera
    17 nov, 2017 Palmela 15:39
    Ainda bem que o Céu é azul! adorei o que o Henrique Raposo escreveu! e para aqueles que não conheceram os anos 60, eu conto: foram anos que vivíamos apavoradas! era um perigo uma rapariga andar sozinha na rua! medo dos ladrões, dos polícias, dos cavalos da GNR, das professoras, de sermos transportadas de autocarro, havia mãos nas nossas pernas, se não mudássemos de lugar! no metro, tínhamos que mudar de carruagem, porque era uma pouca vergonha! na rua, éramos perseguidas até entrarmos numa loja qualquer e comprar ou fingir-se interessada em qualquer coisa da montra, que entretanto fazíamos o funcionário arrumar tudo de novo! não tem conta, quantas vezes entrei na Bertrand do Chiado e pôr-me a ver livros para despistar quem me perseguia! os funcionários da livraria percebiam, riam-se, mas em troca, eu deixava os livros todos fora dos sítios! Não me lembro de alguma vez andar na rua de cabeça levantada, era o chão e a minha sombra, porque se houvesse outra sombra,era para atravessar a rua! e nunca olhar para as portas das escadas à espera que nos servissem de espelho, porque podíamos ver algum não cavalheiro com as calças descaídas a exibir-se para nos meter medo! só tínhamos sossego dentro da nossa casa! E o Maio de 68, nunca corri tanto na minha vida, por causa da manifestação dos estudantes:bastões e carros da tinta,eu de bata vestida e livros de baixo do braço,cheguei aos Restauradores e o porta moedas tinha saltado do bolso! mas o funcionário da Carris,não cobrou bilhetes.
  • João Lopes
    17 nov, 2017 Viseu 11:24
    Análise interessante de HR. Concordo: «O feminismo vive num momento histórico fascinante, porque mais cedo ou mais tarde vai ter de admitir que um regresso ao pudor e à discrição será a grande conquista das mulheres e dos homens».
  • Joca Pires
    17 nov, 2017 Lisboa 09:38
    Ora nem mais! Muito bom texto que explica um dos grandes fenomenos sociais do nosso tempo! Bom trabalho!!
  • José Ramalho
    17 nov, 2017 Beja 09:18
    Acho que o autor confunde a liberdade de expressao corporal ( e o que fazer do corpo) com atentados a integração física de um individuo. A sua crónica novamente culpabiliza a vitima e retira valor do movimento feminista, que apenas pede igualdade e respeito pela sua integridade física. Consideremos o caso de um ladrao que rouba todas as pessoas que tenham um relógio. Pela ordem de ideias deste autor, o ladrao fez aquilo que o sua bagagem cultural o "programou" para o fazer e que a culpa esta do lado da pessoa que ostenta. Logo, faria um apelo a humildade para nao se ostentar nada de valor. Isto, no minimo é ridiculo. E a justica contra o crime ficou onde neste discurso? Esta é a pérola da cronica: "Por outras palavras, quem é contra Weinstein tem de ser contra o Tinder. ". Realmente, ser violado ou obrigado a ter relacoes sexuais nao consentidas é igual a encontros perfeitamente acordados por ambas as partes, nao é? Acho que o autor deve procurar a diferenca entre liberdade e atentado, pois sao dois conceitos que pelos visto confude. Enfim, o que pede o autor é o regresso ao pudor e isso tem por base a objetificação sexual, que é exactamente a fonte do problema para desigualdade dos sexos. Bem haja.