Opinião de Henrique Raposo
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Beijar os avós: a medida justa

19 out, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Mesmo quando eles cheiram a doença, velhice e morte, mesmo quando é um sacrifício, visitar e beijar os avós é mais do que um mero afeto: é um dever.

Um dos homens que me criou, um verdadeiro avô emprestado, tem Parkinson. Vê-lo neste declínio às mãos de uma doença incurável e que furta a própria identidade é um desafio.

Claro que esse desafio aumenta nas minhas filhas. Quando se aproximam deste tio-que-é-avô, sentem um medo instintivo; aquela figura faz gestos estranhos, tem um rosto assustadiço. O que fazer? Protegê-las, impedindo o seu confronto com a doença e a finitude? Não é aceitável. Não se criam seres morais numa bolha fofinha que impede o confronto com a doença, a velhice e, sim, a morte.

A inevitável doença dos avós e tios tem de fazer parte da educação moral das crianças. Caso contrário, ficamos com um cenário macabro e, infelizmente, cada vez mais comum: os velhos ficam sozinhos, porque as “crianças” ou “jovens” nem sequer conseguem lidar com os cheiros da velhice.

Ir ao lar é uma maçada, porque os corredores cheiram a mictório. Passar uma tarde na casa da avó é uma chatice, porque cheira a mofo e a cabelo oleoso. Cheira a prenúncio de morte. E a morte foi ilegalizada por esta cultura do ‘like’, da eterna juventude, da perpétua escapadinha turística.

Educar crianças longe dos avós e tios é assim um duplo sinal de egoísmo: no presente, há o egoísta abandono dos velhos; no futuro, há a certeza de que estas crianças serão adultos autocentrados e incapazes de lidar com a perda, com o fracasso, com a dor física e mental.

Olhem por favor para os números que crescem todos os dias: infantilizar a criança é alimentar o suicídio do jovem.

Quer isto dizer que as minhas filhas têm de beijar obrigatoriamente aquele tio, aquele avô ou outro adulto? Não. As crianças não devem ser colocadas na bolha, mas têm de ser respeitadas na sua natureza.

As regras do mundo não podem ser só as regras dos extrovertidos. Tenho uma timidez radical. As miúdas herdaram-na, são ariscas e caladas, não dão beijos com facilidade. Em casa ou na rua, ralho com quem não respeita esta timidez. Só que aqui é preciso ter cuidado: é muito ténue a fronteira entre timidez e má-criação. Quando andamos na rua, protejo-as das vizinhas que tentam agarrá-las e beijá-las. No entanto, elas têm de reconhecer a existência daquelas pessoas, nem que seja com um leve acenar da cabeça ou com um distante “bom dia”. Não estão obrigadas a entrar na simpatia extrovertida, mas têm de ser cordiais.

Passa-se o mesmo com os avós ou tios. Elas não são forçadas a cumprir a saudação ideal (o beijo), mas ficam sempre a saber que essa saudação é a medida justa. Mesmo quando eles cheiram a doença, velhice e morte, mesmo quando é um sacrifício, visitar e beijar os avós é mais do que um mero afeto: é um dever.

Comentários
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  • Arnaldo Goncalves
    23 out, 2018 Macau 05:07
    Grande artigo meu amigo. 'E preciso separar as águas entre o que é 'alternativo' e de acordo com a moda de momento e o que é eticamente correcto. Digo-o como professor. Se não soubermos passar estas balizas não andamos aqui a fazer nada. Parabéns pelo artigo.
  • António Américo Pimenta de Castro Damásio
    21 out, 2018 Vila do Conde 18:19
    è preciso ganharmos coragem para elevar a educação com humanismo, na linha do respeito como este artigo. Temos de defender a ecologia humana na área animal e afetiva e espiritual sempre no respeito pela natureza seja a idade que for com este artigo bem define.
  • Dina Fonseca
    21 out, 2018 Lisboa 14:40
    Muito bom. Concordo absolutamente com este comentário, as crianças "na medida justa" devem ser confrontadas com a realidade da vida e não serem super protegidas.
  • Maria Adelaide do Ca
    20 out, 2018 Lisboa 14:59
    Muito bom: "a medida justa " . Educar , com equilíbrio e exigência , seres Humanos e Cristãos.
  • isauroca@gmail.com
    20 out, 2018 Setúbal 13:24
    Parabéns, gostei muito do seu artigo e estou inteiramente de acordo.
  • fanã
    20 out, 2018 aveiro 13:10
    Inhumeras vezes discordo com as analises proferidas por este Sr. .... Mas , fora do sentido de opinião, aqui bem argumentado . Fico por reter o titulo deste artigo !!............ "a medida justa, é um dever".. .Pergunto portanto , o que se passa ou se passou, na tola deste doentio convidado, ainda por mais "Docente da Universidade Nova de Lisboa" que na emissão TV de Fatima Ferreira, Prós e Contras , veio catalogar a geração idosa de "leprosos" , quando por muitos dos casos mudaram as fraldas e deram carinho e Amor a sua descendência. Este Sr. Manuel Cardoso é um caso de Psiquiatria e um perigo para os Alunos que tem por sua conta, já demais fragilizados por os tumultos Sociais e perca de valores que são Pilares fundamentais de uma Sociedade " Saudável". Será que será assim que trata os seus próprios Familiares ??????
  • Gualdino Azevedo
    19 out, 2018 Leça do Balio 15:42
    Parabéns Sr Henrique Raposo pelo seu artigo. Coitado do homem queria um minuto de fama. Não deem importância a quem não a tem.
  • Vera
    19 out, 2018 Palmela 13:26
    Olá Henrique Raposo, trouxe aqui um tema de que ninguém fala! 'a vélhice' e que é urgente que se fale... A vélhice cheira a doença, em meios pobres! quando a vélhice entra num meio social considerável, a vélhice tem um cheiro normal! são como os bebés, há casas em que cheira a fraldas sujas! e há outras em que cheira a colónia para bebés, talco e creme do rabinho depois de lavado com sabonete. Não dizem que 'os velhos são como as crianças'? Pois então, tratem-os como tal! com fofices e com higiéne! é claro que os velhos não são de pegar no colo, mas há quem faça esse serviço, que infelizmente, não é pago pela Segurança Social!!! por isso é que os velhos com reformas medíocres, têm netos que também se tornam medíocres! tudo na vida tem uma razão de ser!!! e tudo o que diz respeito ao ser humano, tem preço!!! tem a responsabilidade, daqueles que são pagos para nos fazerem as contas! ou seja, daqueles que nos fazem as contas, bem ou mal! Ser ou não ser! "eis a questão". Obrigada Henrique Raposo, Bem Haja, pela ousadia de falar daquilo que é concreto.
  • Margarida
    19 out, 2018 Bélgica 10:53
    Bom dia, De há uns meses para cá, tenho lido os seus artigos. Fiquei a conhecê-los através do meu marido, que me falou deles. Revejo-me neles e não podia estar mais de acordo. É tão raro hoje em dia ver/ouvir pessoas a mostrarem e a dizerem o que para mim é normal, que quando o vejo assim (perdoe-me a palavra) escarrapachado num artigo FICO FELIZ😀 Muito obrigada Margarida Chaves
  • João Lopes
    19 out, 2018 Viseu 10:27
    É verdade: «Educar crianças longe dos avós e tios é assim um duplo sinal de egoísmo: no presente, há o egoísta abandono dos velhos; no futuro, há a certeza de que estas crianças serão adultos autocentrados e incapazes de lidar com a perda, com o fracasso, com a dor física e mental».