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Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​#MeToo: Carta de um pai de filhas para um pai de filhos

12 jan, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Porque é que a ideia de renúncia que está na base do compromisso que é a família e o casamento está sobretudo associado à educação das minhas filhas e não à educação dos seus filhos?

Meu caro amigo,

Vivemos tempos de mudança e essa mudança passará sobretudo por si, pai de filhos, filhos rapazes, os homens do futuro. Vou tentar explicar porquê.

O movimento #MeToo tornou-se imparável e a sua principal consequência será a revisão dos códigos morais e sexuais que herdámos da revolução sexual dos anos 60. Não por acaso, o contra-manifesto Deneuve é um estertor assustado do Maio de 68. O que assusta Deneuve é o regresso de um módico de pudor que a cultura soixante-huitard julgava banido para sempre.

Como já defendi aqui várias vezes, a revolução sexual do Maio de 68 só beneficiou os códigos marialvas do passado. Weinstein, Polanski e todos estes predadores foram e são legitimados por esse código que aproximou o sexo da pornografia, afastando-o do pudor e do erotismo. Sim, meu caro, pudor e erotismo convivem na mesma frase. Aliás, o segundo nasce do primeiro. Como explica Vargas Llosa em “Os Cadernos de Dom Rigoberto”, só há erotismo onde há pudor, recato, respeito, algo para ir descobrindo. “Pudor” não significa a recusa do sexo; significa apenas que a sociedade filtra e civiliza os impulsos sexuais. Não somos macacos à deriva num universo darwinista; não somos meros recipientes ou tubagens de fluxos químicos. Neste sentido, um dos livros mais iconoclastas da Bíblia, Cântico dos Cânticos, volta a ser fundamental: não nega o desejo, procura apenas colocar esse desejo no sítio certo – o amor e o respeito entre duas pessoas.

É fundamental atacar a contra-cultura dos anos 60 que entretanto se transformou no mainstream cultural. No entanto, esse ataque não pode originar um regresso simples ao “antigamente”. Nem 8 nem 80. Se esta espécie de darwinismo sexual não é solução, o regresso à hipocrisia vitoriana também não é caminho.

A nova educação moral e sexual que inevitavelmente vai surgir, o novo protocolo (para usar os termos de Tom Hanks), não poderá ser uma réplica da velha moral destruída pelos anos 60. Até porque essa velha mundividência conduz-nos ao erro que tudo inquina à partida: centra as atenções na mulher, quando na verdade o problema está no homem. A agressão sexual é 99% masculina, meu caro. Em consequência, há que combater o impulso que liga o pudor à educação moral da rapariga e não à educação do rapaz.

Repare no seguinte: dizemos à rapariga que tem de cruzar as pernas, que não pode abusar no decote e na saia, que tem de ter cuidado, que não se pode expressar através do corpo, mas, ao mesmo tempo, não dizemos nada aos rapazes. Os rapazes são donos do seu corpo, as raparigas não. O corpo das raparigas está sempre em hasta pública. É assim que elas desenvolvem – desde a infância – a ideia de que a culpa é feminina; façam o que fizerem, vistam o que vestirem, digam o que disserem, ficam sempre com ideia de que foram abusadas porque não tiveram cuidado. Por outras palavras, o rapaz e o homem são vistos como seres inimputáveis, quais crianças grandes que não conseguem controlar os seus impulsos, coitadinhos. Este pressuposto moral que inoculamos nas nossas crianças desde a infância tem de ser combatido. E aqui você tem a palavra chave. Vai rever a forma como educa os seus rapazes? Vai continuar a incentivar directa ou indirectamente os tiques e a “heroicidade” do garanhão que papa as meninas todas para grande orgulho do papá?

Sim, meu caro, claro que quero educar as minhas filhas num módico de respeito. Elas também fazem parte da equação. O que se passa com as raparigas assusta-me: a hiper-sexualização logo aos 12, 13, 14 anos; ainda há dias, um amigo fotógrafo confessava, chocado, numa rede social que recebe cada vez mais pedidos para fazer portfolios provocantes de raparigas menores. No entanto, meu caro, o problema central não é a rapariga. É o rapaz, é o homem. O problema não é o corpo vestido ou tapado da rapariga, é a cabeça do rapaz e do homem. No passado, nas sociedades ocidentais, as mulheres andavam tapadas, mas isso não impedia o abuso sistemático. No presente, nas sociedades muçulmanas, as mulheres andam tapadíssimas e, no entanto, são abusadas na mesma. Por outras palavras, eu até posso educar as minhas filhas na sexualidade cristã (Cântico dos Cânticos) mas nada mudará se você deixar os seus rapazes na sexualidade ancorada em Larry Flynt ou no marialvismo tão português. O papel central é seu. Insisto nisto, porque pressinto que este tema interessa apenas àqueles que têm filhas. Posso estar a ser injusto, mas pressinto que os pais que têm filhos continuam a encolher os ombros.

Não, não encolha os ombros, por favor. Não se vá já embora, continue a ler, tente responder comigo a estas perguntas: porque é que educamos as raparigas para desejar o casamento mas não fazemos o mesmo com os rapazes? Porque é que olhamos com censura para a jovem mulher que escolhe não ter filhos quando em simultâneo olhamos com naturalidade para o jovem homem que faz a mesma escolha? Porque é que ela é “egoísta” enquanto ele é um “Dom Juan”? Porque é que a virgindade numa rapariga é sinal de “pureza” enquanto que no rapaz é sinal de “aselhice”? Porque é que o rapaz que escolhe perder a virgindade apenas com a rapariga que ama há-de ser visto como um “aselha” ou “totó”? Porque é que não pode ser visto como alguém puro, tão puro como a rapariga? E, como diz Chimamanda Ngozi Adichie, porque é que a frase “eu sacrifiquei-me em nome do casamento” significa coisas diferentes para homens e mulheres? Para ela, significa mesmo um sacrifício: deixar o emprego, desistir da promoção, abandonar um sonho. Para ele, significa deixar de fazer coisas que não devia fazer à partida: amantes, copos, não cuidar das crianças, chegar a casa tarde, não sacrificar a carreira e os sonhos pela família.

No fundo, a perplexidade que quero partilhar consigo é esta: porque é que eu educo as minhas filhas para o “compromisso” enquanto você educa os seus filhos para o “empreendedorismo”, para o “risco”, para o “sonho”? Porque é que a ideia de renúncia que está na base do compromisso que é a família e o casamento está sobretudo associado à educação das minhas filhas e não à educação dos seus filhos?

Cumprimentos,

Henrique R.

Comentários
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  • André
    13 jan, 2018 Leiria 20:44
    Comentário parcialmente sensato, pois olvidou o seguinte: está desactualizado. Chegámos ao ponto de viragem onde a imaturidade emocional dos rapazes nos torna imberbes até aos 30. Ninguém quer saber de nós até fazermos algo mal, e aí cai o Carmo, a Trindade e a Baixa toda. Por outro lado as raparigas são considerada puras, inocentes e inimputáveis podendo arruinar a vida de qualquer homem com uma palavra: violação. Concordo, no entanto, com a ideia apresentada de ser educar ambos os sexos para a cidadania, urbanismo, educação e progresso. Outro ponto: discordo da ideia de um casamento exigir perda por parte dos intervenientes. Se os indivíduos se juntarem sem saberem quem são e o que querem dá para o torto, mas se ambos falarem e respeitarem mutuamente esses sacrifícios tornam-se amar. Votos de um bom 2018.
  • Pedro Silva
    13 jan, 2018 Lisboa 16:22
    Com que então a revolução sexual do Maio de 68 só beneficiou os códigos marialvas? Será esta uma visão sensata e inteligente sobre uma época, onde existiu liberdade de expressão e tolerância que vão ao desencontro da mentalidade de Henrique Raposo? Afinal, o que temos em Henrique Raposo? Temos apenas o velho compromisso e o encerro de um espírito já conhecido. Não há capacidade de libertação, sonho ou imaginação. Temos a severidade dos tempos antigos de outras épocas que viviam de justiça e crueldade. Não existe nada de novo no pensamento de Henrique Raposo. É tudo velho e antigo. O pior de tudo isto, é a Renascença que o contrata para dar uma opinião como se esta fosse a luz da razão.
  • Vera
    12 jan, 2018 Palmela 21:19
    Pois é Henrique Raposo! eu tenho um filho com 46 anos e diz que não se casa, para não ficar com a testa enfeitada de Viking! então como é que ficamos nesta história? educam-se os rapazes, as raparigas ou ambos os sexos? acabei a rir!... O melhor é deixá-los escolher e depois logo se vê... o casamento é um negócio, que tem que ser bem negociado, de ambas as partes! a base essencial de um bom casamento, são as famílias a que cada um pertence. Se uma das suas filhas, quiser casar com um rapaz que seja filho de um ex-combatente, diga logo que não é boa ideia! porque ter um sogro maluco, é o fim da macacada! e também pode o rapaz ser traumatizado por causa do pai! estes, geralmente são rapazes depressivos e exigentes com tudo! Para lhe dar uma certa paz de espírito, tente encontrar amigos verdadeiros, e convide-os para almoçar em sua casa; depois troque, almoce com a sua esposa e filhas na casa deles, crie um ambiente de amizade, boa disposição e depois o que tiver de ser, será!!! Faço votos de: um Bom Ano de 2018 para Henrique Raposo e sua família.
  • António Costa
    12 jan, 2018 Cacém 13:13
    O mundo deu uma "grande volta", muito grande, nos 60s. Mesmo muito grande, as pessoas de hoje, nem imaginam quanto! Antes dos 60s o Homem era responsável pelo sustento da família, e desde que isso não fosse posto em causa, podia fazer o que entendesse. A Mulher tinha o fardo de cuidar da família. Era socialmente considerado que tinha capacidades "inatas" para essa missão. O marido "enganado" que matasse a mulher era muitas vezes elogiado. Enfim. Os 60s e a pilula, permitiram à Mulher controlar, se queria filhos e de quem os tinha. Hoje as mulheres podem rir de Leis "As crianças, os débeis mentais e as mulheres são responsabilidade do marido". O mundo mudou muito, mas em termos de "respeito pelo outro".....ficou muito, muito pior. O encargo, que o marido tinha (sozinho!) pela família, com toda a pressão e responsabilidade que isso acarretava também não era "pêra doce"! O "outro lado", também não era fácil, pois a mulher pré-60s era tratada com se fosse "atrasada mental". Exemplos: não podia abrir uma conta no banco ou votar. Hoje a Mulher gere a sua vida como bem entende, e o Homem o mesmo. Existe de parte a parte, no meu entender, uma grande falta de respeito. A falta de respeito é "transversal" a toda a Sociedade e não um exclusivo da relação Mulher-Homem.
  • João Lopes
    12 jan, 2018 Viseu 09:35
    Análise inteligente, sensata e corajosa de Henrique Raposo. É verdade: «a ideia de renúncia que está na base do compromisso que é a família e o casamento está sobretudo associado à educação» das raparigas e não à educação dos rapazes. E isso é injusto e discriminatório. Todos devem ser educados igualmente nesses valores perenes, porque são a base da felicidade individual, familiar e comunitária.