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​“Para quê mudar?”, perguntam os alemães antes das eleições

19 set, 2017 • Guilherme Correia da Silva, correspondente na Alemanha


No próximo domingo os eleitores alemães escolhem entre manter a confiança na chanceler Angela Merkel ou entregar o poder ao SPD de Martin Schulz. A extrema-direita está à espreita.

A chanceler alemã candidata-se a um quarto mandato e não parece ter nenhum adversário à altura. Será que Angela Merkel já venceu?

Angela Merkel chegou, viu e parece que vai vencer, a avaliar pelo congresso de pequenos e médios empresários das Uniões Cristãs, em Nuremberga, no Sul da Alemanha a que a Renascença assistiu.

Merkel sorri, cumprimenta aqueles por quem passa e agradece os aplausos da plateia. A chanceler alemã está “em casa” e pede apoio aos militantes. “Queremos um Governo que nos permita concretizar muitas das nossas ideias para o futuro da Alemanha. Isso só acontecerá se lutarmos por cada voto na CDU e CSU.”

Nesta campanha, nem todas as recepções a Angela Merkel têm sido assim. Dois dias antes deste congresso de empresários, Merkel esteve na cidade de Erlangen, a cerca de 20 quilómetros, e foi apupada e assobiada durante um comício. Noutros sítios, houve até quem arremessasse tomates à chanceler e gritasse para ela deixar o poder.

Mas Merkel está há 12 anos à frente da chancelaria federal da Alemanha e não tem qualquer intenção de deixar o cargo para já. Em Nuremberga, Angela Merkel prometeu criar mais postos de trabalho. Garantiu ainda que os impostos não serão aumentados – música para os ouvidos dos pequenos e médios empresários.

“É hora de dizer que, para nós, aumentos de impostos são tabu. Numa altura em que a economia está a funcionar bem, para quê tentar aumentar os impostos para os trabalhadores independentes ou para as empresas familiares e para os agricultores, em vez de agradecer pelos postos de trabalho que criaram? Não é essa a nossa política.”

Para o partido de Angela Merkel, “a Alemanha está bem” e recomenda-se: a economia cresce, o número de desempregados diminuiu para metade na última década e os salários reais aumentaram 1,8% em 2016. É por isso que, para muitos alemães, um novo chanceler está fora de questão.

Este é um sábado típico em Nuremberga. No mercado no centro da cidade, os comerciantes vendem ameixas, uvas, morangos e vários tipos de plantas. Há ainda barraquinhas com salsichas de Nuremberga e Lebkuchen, uns doces tradicionais alemães. Dezenas de pessoas andam pelas ruas logo pela manhã e várias dizem à Renascença estar satisfeitas com a chanceler Angela Merkel.

Mas nem todos partilham dessa opinião. É o caso do Partido Social-Democrata (SPD). Ao longo desta campanha, o cabeça-de-lista do SPD, Martin Schulz, tem insistido que nem tudo são rosas na Alemanha, ao contrário do que o partido de Angela Merkel dá a entender. O SPD pede mais justiça social.

Numa rua mais à frente, num stand do SPD, duas ou três pessoas estão de telemóvel na mão a tirar “selfies” com a figura de Martin Schulz em cartão. Sonja Bauer está ao lado delas, a observar. Bauer é porta-voz do partido para questões sociais na cidade de Nuremberga, e, para ela, o que está fora de questão é continuar a ter Angela Merkel como chanceler.

“É preciso travar o aumento do fosso entre ricos e pobres, também na Alemanha, e resguardar a paz social. Isso inclui salário igual para trabalho igual e o menor número possível de contratos a prazo, porque as pessoas não podem planear o futuro”, diz.

É o outro lado do crescimento económico na Alemanha. Dados do Ministério da Economia indicam que quem ganha menos não tem beneficiado do crescimento e que há uma discrepância cada vez maior entre baixos e altos salários. Isso é ainda mais grave tendo em conta que as rendas de casa estão a aumentar em grandes cidades como Munique, Hamburgo ou Berlim, porque faltam habitações. Em Munique, a renda de uma casa com até quatro assoalhadas ronda os 1.500 euros por mês. Um valor proibitivo para muitos.

“Povo alemão acostumou-se à carinha da ‘mamã’ Merkel”

Vamos até ao restaurante da Associação Portuguesa de Nuremberga. Esta noite, não há muitos clientes, mas falamos com dois portugueses que estão há mais de duas décadas a viver na Alemanha. Maria do Rosário Loures e Mário Lopes já viram passar três chanceleres: Helmut Kohl, Gerhard Schröder e Angela Merkel. Agora, segundo Mário Lopes, é tempo de ter um novo, alguém “que tenha uma maneira diferente de ver as coisas, que faça com que a Europa não siga o caminho que está a seguir, que tente reformar qualquer coisa.”

Maria do Rosário Loures diz que se poupou demasiado em nome do crescimento da economia. “Poupa-se sempre, não só na Alemanha, mas na Alemanha de uma forma muito grave, na educação, infraestruturas e saúde. As estradas, nas cidades, completamente cheias de buracos.”

Segundo o partido alemão os Verdes, mais de mil pontes ferroviárias estão de tal forma danificadas que a única solução é demoli-las. Para Maria do Rosário Loures, isto não se compreende num país tão rico como a Alemanha: “Mas o povo alemão acostumou-se à carinha da ‘mamã Merkel’ e deixa andar”.

Os adversários de Merkel têm alertado para estes e outros problemas. Só que, segundo Alexander Jungkunz, chefe de redacção no jornal de Nuremberga “Nürnberger Nachrichten”, a chanceler tem dado pouco espaço para ataques. O SPD está em segundo lugar nas intenções de voto, atrás da CDU/CSU de Angela Merkel.

“Martin Schulz tenta sempre perseguir a chanceler, mas não consegue. E, de facto, ele aborda problemas que afectam o país, mas isso só agrada a quem sofre com esses problemas – é uma campanha mais voltada para minorias”, diz.

“Desmobilização assimétrica”

Antes de a campanha começar oficialmente, a chanceler surpreendeu os adversários ao anunciar que os deputados do seu partido podiam votar sobre o casamento homossexual de acordo com a própria consciência – o que levou à aprovação da lei no Parlamento. Noutro tema controverso, a idade da reforma, a chanceler voltou a surpreender ao contrariar o colega de partido Wolfgang Schäuble e ao dizer não à reforma aos 70 anos.

Esta é uma estratégia que Merkel já usou no passado. Os especialistas chamam-lhe “desmobilização assimétrica”, como explica Gero Neugebauer, um politólogo da Universidade Livre de Berlim.

“Esta estratégia consiste em não pegar em temas que possam levar o adversário a mobilizar os seus apoiantes. […] Dito de forma simples, Angela Merkel tenta não acordar os eleitores, enquanto Martin Schulz, como candidato do SPD, faz o contrário. Mas Merkel tem mais sucesso, porque Schulz não consegue levantar questões que ofereçam realmente uma alternativa.“

Muitos eleitores acabam, assim, por optar pela governação que já conhecem, de Angela Merkel – até porque há várias semelhanças nos programas partidários. Por exemplo, tanto Merkel como Schulz prometem mais 15 mil polícias para reforçar a segurança interna. E tanto Merkel como Schulz prometem reforçar a integração dos refugiados na Alemanha e combater as causas da onda de migração para a Europa.

“É uma estratégia consciente da União, que já foi realizada com sucesso em 2013, embora este ano não seja tão fácil, porque há o protesto da direita, contra Merkel como pessoa, contra a sua política para a Europa e, sobretudo, contra a sua política de refugiados”, explica Gero Neugebauer.

A ascensão da extrema-direita

O partido Alternativa para a Alemanha, AfD, que é anti-União Europeia e anti-imigração, já tem representantes em 13 dos 16 Parlamentos dos estados federados. E, segundo as sondagens, deverá agora entrar pela primeira vez no Parlamento federal. Está em terceiro lugar nas intenções de voto.

A AfD pede para fechar imediatamente as fronteiras do país. Os refugiados que continuam a vir para a Alemanha só poderiam pedir asilo se apresentassem documentos válidos. Além disso, segundo a candidata do partido, Alice Weidel: “Como AfD, pedimos a criação de centros de asilo no terreno, onde quem precisa realmente de ajuda deve pedir asilo directamente, com documentos válidos.”

Nenhum partido aceitou, até agora, coligar-se com a AfD: Nem a CDU/CSU, de Angela Merkel, nem o SPD, de Martin Schulz, nem os Verdes, nem a Esquerda, nem os liberais do FDP.

Mas várias outras coligações continuam em aberto. Para já, a olhar para as sondagens, só a reeleição de Angela Merkel como chanceler parece ser certa – a composição do próximo Governo continua uma incógnita. E os analistas fazem contas. Os aliados “naturais” do partido de Angela Merkel seriam os liberais do FDP, mas, segundo o politólogo Gero Neugebauer, os dois, sozinhos, não deverão ter uma maioria no Parlamento.

Além disso “Uma coligação com a Esquerda está fora de questão e os conservadores bávaros não gostariam muito de ter uma coligação com os Verdes. E naturalmente começará uma discussão no SPD do género: ‘primeiro o país, depois o partido; por isso, vamo-nos coligar’”.

Ou seja, depois das eleições, o Governo alemão pode ter um formato semelhante ao dos últimos quatro anos – com uma grande coligação entre a CDU/CSU e o SPD. O cabeça-de-lista social-democrata, Martin Schulz, já impôs quatro condições: “Estes quatro pontos serão a minha preocupação central depois de 24 Setembro: iguais oportunidades de educação para as crianças deste país, salários iguais para homens e mulheres, uma reforma segura e adequada e a protecção dos valores alemães e europeus numa União Europeia estável.”

Se estas forem as únicas condições de Schulz, as conversações entre o SPD e o partido de Angela Merkel não deverão ser difíceis. Merkel defende posições semelhantes. Além disso, para quê mudar? É uma pergunta que se continua a ouvir com frequência. Nas sondagens, muitos eleitores admitem estar abertos ao retorno da grande coligação.

Comentários
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  • Vasco
    21 set, 2017 Setúbal 00:50
    Possivelmente recusam-se a mudar de cavalo para burro!