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Reportagem - ​Um mês depois do fogo. "Perdemos tudo e ainda acham que não estamos a falar a verdade" - 14/11/2017 - Liliana Carona
Reportagem - ​Um mês depois do fogo. "Perdemos tudo e ainda acham que não estamos a falar a verdade" - 14/11/2017 - Liliana Carona
Reportagem

​Um mês depois do fogo. "Perdemos tudo e ainda acham que não estamos a falar a verdade"

14 nov, 2017 • Liliana Carona


Há quem espere apoios e quem veja o Governo duvidar das contas que fizeram aos prejuízos. Um mês depois da tragédia de 15 de Outubro, retratos de Seia, Gouveia, Tondela e Oliveira do Hospital.

No concelho de Seia, no distrito da Guarda, 130 habitações, 76 delas de primeira habitação, foram atingidas pelo fogo de 15 de Outubro. Na freguesia de Vide, em Malhada das Cilhas, encontrámos Cacilda Brito, 83 anos. Teve o fogo à porta de casa, obrigou-a a sair para Loriga. Lembra-se de um casal, que voltou para trás para ir buscar roupa para dois filhos menores. Nunca chegaram a porto seguro: morreram na estrada apanhados pelo fogo.

Cacilda refere-se a António Bailão, 47 anos, e Raquel Bicho, 32 anos, que viviam na aldeia do Cide, em Vide. Naquele domingo foram surpreendidos pelo fogo, que avançou rápido demais. Saíram de casa e já estavam em segurança na Barriosa, juntamente com os dois filhos menores, um menino de dois anos e uma menina de nove. Mas voltaram para trás.

É na estrada que liga a Cide, pequena povoação com cerca de 50 pessoas, que encontramos Armando Bailão, 50 anos, irmão e cunhado do casal que perdeu a vida na estrada. Um mês depois, Armando e a esposa Maria da Conceição, 58 anos, depositam flores e colocam uma vela eléctrica nos locais da tragédia.

“Estamos a colocar uma cruz e umas flores para identificar… Aqui ficou o meu irmão, tentou fugir, mas não conseguiu, talvez tenha rebentado um pneu. E ali a minha cunhada, dentro da carrinha. Revolto-me com isto e não sei o que pode acontecer”, desabafa. “Os meus sobrinhos só chamam pela mãe e pelo pai. Perdemos tudo, parece que não temos nada em casa.”

“Valia mais terem ardido as casas e eles que escapassem. A casa torna-se a construir, mas a vida de uma pessoa não dá para voltar atrás”, conclui Maria da Conceição.

Gouveia. Viver num contentor

A meia centena de quilómetros, encontramos uma casa destruída em Vinhó, Gouveia, no distrito de Guarda. Um casal de pastores perdeu a moradia e o abrigo dos animais.

No concelho de Gouveia, 16 casas de primeira habitação foram completamente destruídas pelo fogo. Um mês depois, apesar de já terem sido realojados, o pastor Abel Pimenta recusa abandonar a quinta onde sempre viveu. Vive num contentor frente à casa.

“Durmo aqui e como aqui porque vivi aqui a minha vida e o que está aqui fui eu que fiz com um empréstimo que me custou muito a pagar. Com ou sem ajuda, pretendo reconstruir isto. Eles falam, mas ainda não vi nada de concreto”, critica Abel Pimenta, 54 anos.

A mulher e a filha vivem numa casa emprestada pelo presidente da Junta de Vinhó. “Mas não é nossa, queremos a nossa casa de volta”, afirma a esposa do pastor, Fernanda Pimenta, de 53 anos. “Se vir que nos desprezam, como noutros casos que já vimos, fecho a porteira e vou para a Suíça”, anuncia Abel.

Já comunicaram ao Ministério da Agricultura os prejuízos que tiveram, mas “há quem duvide. É ver para crer. Veja o chão estalado, já caiu o telhado, era isto que gostava que vissem de perto e quem cá vem não analisa de perto”, diz.

Ali à frente havia um pinhal, “onde tinha 400 pinheiros”. Também havia um barracão de trabalho, garante. Os serviços locais do Ministério da Agricultura duvidaram: dizem que ali só deveria haver uns 40 pinheiros e um telheiro em vez do barracão. “Perdemos tudo e ainda acham que não estamos a falar a verdade. Já estou um pouco com a idade avançada para levantar a cabeça, mas, se Deus me ajudar, quero ver se ainda consigo.”

Tondela. Empresas “de primeira” e “de segunda”

Os prejuízos causados pelo incêndio do 15 de Outubro no concelho de Tondela, no distrito de Viseu, rondarão os 30 milhões de euros, 150 casas de primeira habitação consumidas pelas chamas e 40 empresas destruídas.

Vítor Mota, 56 anos, não consegue esquecer aquele som “tão grave, ensurdecedor”, o som de quando “estremece tudo”. A recordação perturba-o. Perdeu quase tudo de uma grande empresa exportadora de madeira para Espanha. “Tenho 500 mil euros de prejuízo neste parque, mas em toda a empresa são aproximadamente 900 mil euros. São cerca de 30 camiões que estão reduzidos a meia-dúzia.”

As plataformas em Tondela e Mortágua e mais de 10 mil toneladas de madeira ficaram transformadas em cinza. Vítor Mota não entende os papéis que lhe mostram que está fora dos apoios anunciados. “Saiu o regulamento dos programas de apoio e chego à conclusão que a nossa empresa, por ser de exploração florestal, não está contemplada em nenhum destes programas. Pergunto porquê. Perante as mesmas dificuldades, há empresas que podem aceder aos apoios e outras não. Então, há empresas de primeira e outras de segunda”, contesta.

O empresário de Tondela continua sem ver luz ao fundo do túnel. “Tenho muitas dúvidas. Vejo a situação muito complicada e não vejo soluções adequadas aos nossos problemas. Estou muito desiludido: houve muita solidariedade verbal, resultados práticos zero”, critica.

Oliveira do Hospital. A solidariedade dos pastores

Em Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, os incêndios mataram 12 pessoas. Outros números: 180 casas de primeira habitação consumidas pelas chamas; 95 empresas afectadas; um prejuízo total a rondar os 90 milhões de euros; 480 postos de trabalho afectados; 97% de área florestal ardida; 5 mil animais mortos.

A Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela tem 400 pastores que beneficiam de apoio, graças à ajuda vinda de todo o país, destaca o presidente da ANCOSE, Manuel Marques.

“Devemos muito a Coruche, a Vila do Conde, a Grândola, a Soure, a Sabugal, a todas as partes do país e às fábricas de rações que nos fizeram preços reduzidos. Há pessoas a querer doar e que duvidam se chegam ao destinatário. Aqui fica tudo registado”, esclarece o responsável.

A produção de queijo da Serra da Estrela deverá cair para metade este ano. “Alguém que queira comprar ovelhas bordaleiras neste momento não consegue fazê-lo”, lamenta Manuel Marques.

João Lameiras, 49 anos, tem dois filhos, vive em Vila Franca da Beira, onde ardeu a casa e a queijaria. A realidade de uma vida é agora um sonho: João quer voltar a produzir queijo da Serra da Estrela.

“Ardeu tudo, o material da queijaria, a parte agrícola, agora estamos parados, não temos onde fabricar, vai ser difícil, mas o meu sonho era reconstruir a queijaria até ao final do ano”, sorri, com as lágrimas nos olhos.

Apesar de todas as dificuldades, João não culpa ninguém, só agradece. “Tanto a nível de câmara como da ANCOSE e do país, as pessoas têm sido espectaculares a ajudar, é espectacular o que têm feito, é uma forma de passar melhor o tempo e não pensar tanto no que aconteceu”, revela, enquanto carrega mais um saco de ração que dará para pouco tempo. Tem 130 ovelhas bordaleiras, não perdeu nenhuma nos fogos de Outubro. “Salvei os animais, mas não consegui salvar a casa. Ou salvava uma coisa ou outra.”

Comentários
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  • Vasco
    15 nov, 2017 Santarém 23:15
    A compreensão dos políticos neste país é muito lenta e não tem nada de simplex!
  • Raquel Teixeira
    15 nov, 2017 Gaia 21:45
    As pessoas reclamam o que é delas. Reclamam o monte de pedras ao alto, como diz o sr filipe, que tanto lhes custou a construir. Uma vida inteira a trabalhar para ter um monte de sucata velha que compraram para se puderem deslocar. Não fale sem conhecimento de causa. Desloque-se ao local e comprove o que realmente aconteceu. E se acha que estas pessoas se estão apenas aproveitar para ficarem ricos com as supostas indenizações que vão receber, troque a sua vida pelas deles. Eles com toda a certeza não se vão importar. É que da maneira que fala nota-se que vive uma vida perfeitamente folgada e nunca passou por tal angústia. Perder o que se construiu numa vida inteira em poucos minutos é um sufoco que só eles conseguem descrever.
  • Anna
    15 nov, 2017 Oliveira do Hospital 20:35
    E as multas que hão-de aparecer aos proprietários de matas que dias após o incêndio tentavam controlar possíveis reacendimentos e são "apanhados em flagrante" pelas autoridades que nem quiseram ouvir explicações.... Pois é Srs GNR de Seia e Pinhancos. É mais fácil multar um pobre que tenta apagar o que ainda arde na sua mata e culpá-lo de incendiário em vez de contactar os bombeiros para prestarem auxilio... O trabalho de manter a mata limpa não é reconhecida pois ardeu tudo que estava no caminho do Diabo que andava solto naquele malvado dia.
  • José Ferreira da Sil
    15 nov, 2017 Bruxelas 12:39
    Porque é a empresa "grande" não tem mais ajudas ? Dá mais emprego e teve mais prejuizo . O governo só dá "esmolas" ? Quem tem medo de ajudar a serio o interior de Portugal ?
  • Jose
    15 nov, 2017 Santa Comba Dão 11:31
    Caro Filipe... deves estar descansadinho a viver no paraiso... sim... porque não sabes o que é o inferno! Só desejo que tu e a tua familia nunca passem por o que muitas destas pessoas passaram, porque aí terias um discurso diferente... que todos te perdoem, a ti e a todos os que falam sem saberem o que dizem!!!
  • Paulo Fernandes
    15 nov, 2017 Vila Real 10:09
    Estou solidário com todos os portugueses afectados directamente elos incêndios e considero urgente serem ajudados a retomar as suas vidas, na maneira do possível. No entanto, a ajuda terá de ser ajustada em função não apenas dos bens materiais que perderam, mas enquadradas numa formula de proporção de quanto cada um tem contribuido ao longo da sua vida para o estado. Não se pode ajudar simplesmente pagando todo o inventário danificado, a quem durante a vida pouco ou nada contribuiu, fugiu a impostos, etc..etc.. Nós sabemos, infelizmente que há muitos portugueses, que na hora de pagar impostos, fogem como o diabo da cruz, mas na hora de pedir não se coibem de abrir bem as goelas. Na hora de pagar, avaliam casas e terrenos por baixo, declaram rendimentos baixos, etc... A hora de pedir indemnizaçoes são os maiores, casas muito valiosas, megaproduções de tudo e mais alguma coisa... Óbvio, é previso o Estado (para o qual todos os que contribuem) fiscalizar. Isso sim é justo.
  • José Antonio
    15 nov, 2017 Porto 09:11
    Aqui está bem visível o mundo Cor de Rosa da geringonça. Está tudo muito bem tudo a crescer nunca estivemos melhor, mas o Pais real continua á espera e na miséria.
  • Frankie
    15 nov, 2017 Viseu 08:54
    E eis que, de repente, uns chicos espertos de Lisboa descobriram que, afinal, são moradores em Oliveira do Hospital, em Seia, em Tondela,em Vouzela e que a casota abandonada herdada dos avós, afinal, é morada de 1ª habitação.
  • 15 nov, 2017 LX 07:29
    Desconfiam porque, além de ser norma de comportamento no dia-a-dia nesta terra, nivelam por baixo e poupam ao erário público para que as contas não "derrapem" e cumpram os "objectivos". Assim tipo companhia de seguros Ou como na saúde e todo o resto a não ser que existam lobbies privados que beneficiem e então nesse caso até se fazem as contas por alto, muito alto para que se receba boas comissões. Hà pois que continuar a explorar o pobres pois não têm muitas alternativas nem força reivindicativa. Além do mais pouco vai mudar...
  • Filipe
    15 nov, 2017 évora 03:38
    "Foram casas que arderam" ... mesmo por isso , deviam ter seguro obrigatório de incêndio ! ... e não chamem casas a um monte de pedras erguidas a fazer de paredes , construção de taipa sem valor qualquer no mercado , mas que valem milhares de euros agora . Até a sucata e carros gripados faz anos , pedem agora novos ! Tenham tato ! Tudo e todos agora querem receber , pois cheira a mama da vaca . Os peritos independentes deviam avaliar os estrados primeiro , e depois pagar consoante .o valor justo . Agora anda Portugal de tanga para dar a essa gente o que nunca tiveram em vida ... foi assim que o Marquês de Pombal ergueu Lisboa depois do Terramoto ? A dar escudos ? Foi assim que a Europa se levantou das grandes guerras ? Os Portugueses não podem ouvir falar em euros ... Olhem façam assim como no Alentejo aquando da construção do Alqueva . Com a inundação de terras pela água , muitas propriedades foram sempre montes de pedras selvagens sem vida animal ou vegetal , só mato ! Quando cheirou a indemnização , havia uma ou duas empresas com cabeças de gado e máquinas que arranjava essas terras a preceito , onde metia sempre o mesmo gado para que depois os peritos a avaliassem por cima do valor justo ... e assim se fizeram fortunas do nada !