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Opinião de João Ferreira do Amaral
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​Determinismo geográfico grosseiro

15 jun, 2018 • Opinião de João Ferreira do Amaral


De vez em quando, da boca de políticos (em geral medíocres) ou de comentadores pouco dados a grandes leituras surgem formas grosseiras de determinismo geográfico como justificação para a criação de estados.

O determinismo geográfico, em ciência social é a concepção que considera que o homem é fruto do meio e que portanto todos os aspectos importantes da vida em sociedade são determinados pelas condições geográficas.

O determinismo geográfico nas suas versões mais elaboradas não convence, mas tem, pelo menos, a espessura necessária para valer a pena fazer a sua crítica.

Não assim o que eu chamo o determinismo geográfico grosseiro que verdadeiramente não mereceria referência se não fossem os políticos e comentadores que mencionei.

Pode sintetizar-se o determinismo geográfico grosseiro desta forma: se um dado espaço, do ponto de vista geográfico, se distingue razoavelmente de espaços limítrofes, então deve formar um estado cujo território coincida com esse espaço.

A Europa, como grande península da Euro-Ásia, distingue-se do resto deste super-continente? Então deve formar-se um estado europeu. Deve mesmo, segundo alguns, constituir uma pátria, provavelmente instituída por decreto. Um desses “alguns” é o actual primeiro-ministro espanhol que recentemente proferiu aquela que poderá vir ser considerada a afirmação mais estapafúrdia do ano (ganhando inclusivamente às de Donald Trump) : “ a Europa é a nossa nova pátria” (dele, dos seus amigos ou dos Espanhóis, não é claro).

Outro exemplo. Como a Península Ibérica se destaca geograficamente do resto da Europa, então deve existir um estado ibérico.

Lamento. Mas a Europa não é minha pátria, nem a Península Ibérica é mais que uma designação geográfica e não é, nem tem que ser, uma unidade política. Por isso andaram muito bem os deputados portugueses em não aceitar que o parlamento alemão, por razões orçamentais (pobres alemães, tão poupadinhos!) transformasse dois grupos parlamentares de amizade (um com Portugal e com Espanha) num só grupo de amizade ibérica.

Espero que este caso alerte todos os que se deixam embalar pelo federalismo europeu.

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  • MASQUEGRACINHA
    15 jun, 2018 TERRADOMEIO 18:09
    Tem toda a razão. De passinho simbólico em passinho simbólico vai-se fazendo a caminhada para (mais uma) situação de facto. É como com aquela da cadeia de balcões de um banco alemão em Portugal vendida a um grande banco espanhol: de balcãozinho em balcãozinho se vai avançando para a iberização (ou seja, espanholização) da banca portuguesa. Se não funciona a cooperação voluntária (como nos tempos do entusiasta P. Coelho e apaniguados), há sempre um plano B. Os poupados alemães nem percebem que parte é que os portugueses insistem em não perceber, de como isso seria muito melhor para todos, um verdadeiro simplex, concentrar os "fluxos financeiros" da ibéria toda. E cá vamos carregando com a cruz da CGD, que safámos por uma unha negra, embora com o castigo suplementar de pagar juros superiores a 10%, vitalícios!, a uma carraça privada. Mas haverá ainda alguém, mesmo entre os antigos crentes, que deseje ou acredite num federalismo europeu? Nem já na União Europeia, quanto mais num federalismo europeu.