Opinião de João Ferreira do Amaral
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​Debate necessário, mas difícil

21 set, 2018 • Opinião de João Ferreira do Amaral


A situação europeia - toda a gente, penso estará de acordo - exige um larguíssimo debate de modo a encontrar um caminho de saída para o lamaçal em que a União está atascada.

O paradoxo é que se torna muito difícil ter hoje esse debate. E, curiosamente não por culpa dos chamados populistas. Pelo contrário, são os meios europeístas/federalistas que têm tornado esse debate até agora, inviável. Basicamente por três razões:

- Em primeiro lugar, entendem que o a União Europeia tem sido um êxito extraordinário e que se alguma alteração tem que ser feita é no sentido de a tornar ainda mais centralista. Ou seja, nada há a mudar verdadeiramente. O problema é que a opinião pública, em especial dos países menos competitivos, sabe perfeitamente que a Europa pós-Maastricht está longe de ser uma mar de rosas e crescentemente vai descobrindo que o principal problema tem sido justamente o agravamento do centralismo que os federalistas têm induzido. Claro que o facto dos meios federalistas se misturarem muitas vezes com entidades que têm interesse directo nos rendimentos que o orçamento comunitário espalha tem muito a ver com esta atitude acrítica em relação à União.

- Em segundo lugar, o federalismo continua entretido em propor grandes projectos de instituições europeias feitas a régua e esquadro (pecha que já vem de trás, do fiasco que foi a abortada constituição europeia) como se o problema da Europa não fosse uma nua e crua luta pelo poder entre estados historicamente sedimentados, em que os mais poderosos usam o federalismo como forma de dominar os estados menos poderosos ou mais periféricos. Nunca na História uma integração política de um espaço, seja através dum império seja através de uma federação deixou de ser uma forma de beneficiar o centro económico em prejuízo das periferias. Domar esta luta pelo poder e proteger as periferias, que deve ser o nosso principal objectivo, não se compadece com modelos federalistas que escondem, afinal, um brutal centralismo.

- Finalmente, não contribui nada para o debate esta ideia que o federalismo propaga que todos os que não são federalistas são populistas. Felizmente, esta táctica política, que tem antecedentes pouco recomendáveis, não convence ninguém. Porque não é difícil de constatar que é o combustível centralista, fornecido pelo federalismo, que alimenta, embora involuntariamente, o populismo.

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