Opinião de José Miguel Sardica
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O armistício de 2018

14 nov, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


Hoje, alerta-nos o Papa Francisco, parece que já estamos numa “III Guerra Mundial aos pedaços”.

Na manhã de 11 de novembro de 1918, dia do armistício que pôs fim à I Guerra Mundial, João Chagas, o embaixador português em França, saiu à rua para apreciar a explosão de alegria dos parisienses. Os Campos Elísios estavam “multicolores”, com “magotes” empunhando as mais diversas bandeiras; na Praça da Concórdia via-se “o espetáculo de um povo que subitamente sai de um terrível pesadelo e encara com os clarões da mais deslumbrante realidade”.

Em Londres, o primeiro-ministro britânico David Lloyd-George anunciou a rendição da Alemanha com estas palavras: “Espero que possamos dizer que assim, nesta manhã decisiva, todas as guerras chegaram ao fim”. Tudo era esperança e ilusão: da mesma forma que nenhum dos grandes decisores da Europa sabia, em 1914, em que (novo) tipo de guerra estava a envolver o seu país, nenhum imaginava, em 1918 – sobretudo no calor da vitória – o mar de problemas que aí vinha, entre a crise e a reconstrução, a perda da inocência e o revanchismo, a fragilidade da Paz de Versalhes e a ascensão das ditaduras, à direita e à esquerda, que haveriam de fazer a Europa e o mundo entrarem num espiral autodestrutiva conducente a uma II (e ainda pior) Guerra Mundial

Compromissos académicos permitiram-me estar em Paris, no passado domingo, e assistir às celebrações do centenário do armistício. O contraste com a folia testemunhada por João Chagas não poderia ter sido maior. O Arco do Triunfo parecia uma cidadela sitiada por rigorosíssimas medidas de segurança. O público estava a dois quarteirões de distância (no mínimo); nos prédios, ninguém, a não ser “snipers”. Nos Campos Elísios, ecrãs gigantes amplificavam o que se passava lá em cima, sob o Arco. A Marselhesa, as invocações fúnebres, o discurso de Macron e o impressionante «Bolero» de Maurice Ravel, sonorizando ao vivo imagens exibidas de 1914-1918, foram seguidos em (quase) total silêncio pela multidão. Para lá dos milhares de anónimos que se acotovelavam, só alcatrão vazio, barreiras metálicas, carrinhas da CRS francesa e muita gendarmaria armada. Havia no ar o difuso sentimento da importância da efeméride e do respeito, francês e não só, por aqueles milhões de mortos de há um século, mas também uma preocupação cinzenta, da cor do céu, como que oprimida pela chuvinha incessante que se ouvia gotejar nos quiosques e chapéus de chuva e nas bandeiras francesas que engalanavam as árvores da avenida parisiense.

Sabe-se o que aconteceu à paz de 1918, tão alegremente celebrada no 11 de novembro de então, e tão tragicamente maltratada até 1945, e mesmo depois, até hoje, em tantos sítios. Aquela fora a Guerra para acabar com todas as guerras e tornar o mundo seguro para as democracias (como anunciou Woodrow Wilson). Nada disso aconteceu. Hoje, alerta-nos o Papa Francisco, parece que já estamos numa “III Guerra Mundial aos pedaços”.

Por isso, o clima, em Paris, era mais de preocupação do que de alegria. Ali estiveram os senhores do mundo; o problema está em percebermos quantos deles estão mesmo interessados em não repetir a guerra e quantos a estão a favorecer com os seus nacionalismos populistas e xenófobos. O discurso do anfitrião, o Presidente Emmanuel Macron, foi extraordinário, na forma, no conteúdo e na dicção. Evocou, como devia, o passado; nas entrelinhas, porém, não foi celebratório, mas preventivo, explicando que a paz e a fraternidade são tão necessárias hoje como no passado. Com Trump, Putin, Erdogan e C.ia ali sentados, com Merkel de saída anunciada e May ausente, o “Kennedy francês”, descontados os tiques de gaullismo, sabe e sente-se cada vez mais sozinho, num mundo cada vez mais incerto.

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  • António Costa
    14 nov, 2018 Cacém 12:14
    E na sequência do final da I Grande Guerra os canhões "gigantes", de grande calibre iram ser "proibidos". A única coisa que aconteceu foi a pesquisa militar se "virar" para a produção de foguetes. A aviação militar e a os carros de combate iriam mostrar-se muito mais "eficientes" no terreno militar que os grandes canhões da I Grande Guerra. A Paz não se "conquista" por decreto, e infelizmente, certos indivíduos continuam a confundir o "respeito pelo outro" com Medo e Cobardia. Diante dessas "pessoas", a Guerra só se evita, se estivermos preparados para ela, e às vezes nem isso…..