Opinião de José Miguel Sardica
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O “brunismo” que ainda espreita

19 set, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


Em Portugal, fatores (ou pobrezas) sociológicos vários fazem com que o futebol seja um “estado” dentro do Estado

O “reino” do futebol parece ter dominado por completo o espaço mediático português. Para lá do jogo jogado e do ambiente nas bancadas, há, fora dos estádios e nas televisões, redes sociais e imprensa escrita, o “pré-match”, o direto com adeptos, a “flash interview”, a conferência de imprensa, o rescaldo, a análise, o debate, os casos da arbitragem e muita outra cacofonia, que preenche dias inteiros. Nos anos 80, o antropólogo Desmond Morris explicou, em livro célebre («A Tribo do Futebol»), o quanto o chamado “desporto-rei” era uma arena tribal, de multidões irracionais, alienadas pela dinâmica do grupo e excitadas pelos instintos mais primitivos – como se o futebol fosse (e é), um saguão ou um escape por onde muitos escoam as suas paixões, raivas e instintos.

Em Portugal, fatores (ou pobrezas) sociológicos vários fazem com que o futebol seja um “estado” dentro do Estado. Salvo raras exceções, são os políticos ou outros agentes públicos que cortejam os senhores da bola, enquanto estes fogem das regras da civilidade ou da legalidade. Num (sub)mundo que teima em não se autorregular ou que não tem mão no hooliganismo mais infrene, talvez o Estado (o verdadeiro, o político, o das leis), precise de atuar mais, para controlar líderes desbocados e populistas e claques que-não-existem-mas-que-afinal-até-existem e que são autênticas guardas pretorianas, infiltradas por interesses radicais obscuros, quase atuando como milícias de gangsters. Em círculo vicioso, e desde que as televisões descobriram o rentável negócio de audiências que são os programas sobre futebol, o que é dito em estúdio ecoa para as ruas e aumenta ainda mais a tensão e o distúrbio.

Tirando o caso e-Toupeira, o prato quente do futebol nacional nos últimos meses foi o Sporting. O ataque a Alcochete, em maio, mostrou imagens incompreensíveis e inaceitáveis num Estado de direito: um bando de encapuzados correndo em passo militar para o confronto (quase) armado! Depois, foi toda a novela Bruno de Carvalho, agora terminada – salvo um estribilho ou um “post” na internet do próprio – com a eleição de Frederico Varandas para o comando do clube/SAD leoninos.

O Benfica teve Vale e Azevedo, um escroque bem-falante; o Sporting teve “BdC”. Messias de ocasião, Bruno caiu em desgraça ao não conseguir o almejado título. A partir daí, tendo chegado onde chegou, vindo não se sabe bem de onde, não pôde suportar deixar de ser o que era. Bruno de Carvalho é um estudo de caso, e não só no futebol, por exibir todos os tiques do mais rasteiro populismo que infecta os dias de hoje: a megalomania e a chamada às armas, a vitimização e o apelo contra os inimigos, a imprevisibilidade e a fúria, alguma telegenia e muita lábia. Li algures que era o Trump ou o Kim Jong-un de Alvalade. É uma comparação exagerada, mas que contém a virtude do alerta. Bruno de Carvalho era, enquanto Presidente do Sporting, um epifenómeno.

O problema é que, hoje no futebol e nas claques, amanhã em juventudes partidárias ou em cargos de alta política, o “brunismo” é um modo de ser que vai ganhando adeptos e expressão, espreitando as melhores oportunidades para subir por cima de todos e contra todos. Que a democracia política se limite a lamentar o péssimo estado que domina este “estado” dentro do Estado é muito pouco. Em 1985, na sequência da célebre tragédia do Heysel, a então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, determinou a suspensão dos clubes ingleses nas provas da UEFA durante cinco anos. Em Portugal, onde os presidentes das SAD vão almoçar com os deputados no Palácio de São Bento, quem é que se atreveria a decisões corretivas e exemplares deste calibre?

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  • ANTONIO
    19 set, 2018 ilhavo 10:50
    ENTÃO E O PINTO DA COSTA DO APITO DOURADO. NADICA DE NADA?